Somos todos loucos, e estamos autorizados a falar da loucura somente de dentro dela. Foi a partir desta perspectiva que o psicanalista Jacques Lacan estabeleceu sua relação com a loucura. Antes dele, quem adentrou o território do delírio como possibilidade de invenção singular foi Sigmund Freud. Na história da arte o delírio sempre foi força motriz para diversos artistas, como Antonin Artaud que, com lógica própria, expandiu seu pensamento para além da literatura, incidindo nas artes plásticas, no teatro e na poesia. Para entrar na linguagem, Artaud reinventa a própria gramática, com uma assinatura sempre nômade, numa temporalidade móvel como um “sonho-poema” em que, despossuído de “si mesmo”, alcança a epifania.
Aos poucos, grande parcela da invenção que abriga o sonho e o delírio como potência de criação vem sendo revelada e retomada na arte brasileira. É um movimento que se abre à descentralização e encontra o artista nas encruzilhadas, fora dos polos metropolitanos e centros elitizados de formação, em fricção com linguagens e pensamentos diversos. Pensada à luz da psicanálise, essa “outra cena” também inclui a ideia de pensar para além do cânone no arco da história da arte. Podemos aqui adensar certa tradição delirante do sonho, do transe e de práticas diversas que se forjam como contraponto à escassez imaginativa. Aqui podemos tratar o delírio como contraponto à patologização e, por isso, ao invés de “loucura”, colocamos acento no delírio como força que perfura o normativo.
Um artista brasileiro que nos ajuda a pensar a dimensão delirante é Arthur Bispo do Rosário. Na véspera do natal de 1938, um arrastão de anjos tomou posse de seus sentidos. A partir de então, ao longo de cinquenta anos, o interno da Colônia Juliano Moreira criou e nominou o mundo com sabedoria radical. De suas mãos brotaram miniaturas, mantos, estandartes. Nascido no interior do Sergipe, seu delírio trazia as marcas da Folia de Reis ou do Reisado e também de sua passagem pela Marinha. Apesar das torturas no tratamento psiquiátrico, Bispo do Rosário resistiu e fez sua travessia em um pedaço de cela, produzindo um universo como expressão do sonho e do delírio, revelando a possibilidade de uma linguagem outra que não a codificada pela norma.
Em 2 de março de 1954, no manicômio de Münsterlingen, na Suíça alemã, realizou-se o que foi chamado de “carnaval de loucos”. O costume, que tem raízes na Idade Média, consistia em disfarçar os internos com máscaras e levá-los a passear pela cidade. A visita a Münsterlingen representa um documento extraordinário sobre os anos fundamentais na forja do pensamento de Michel Foucault, autor de “História da Loucura”. Além disso, fotografias de Jacqueline Verdeaux registram aquele carnaval e os encontros com os psiquiatras que ali atuavam: imagens alucinantes com máscaras assombrosas revelam a questão estruturante do humano. Ao dinamitar categorias e problematizar radicalmente certas noções estanques e fixas, as fantasias surgem como força poética sustentando o enigma do delírio como invenção.

Nesta exposição encontramos um bloco diverso de artistas de territórios múltiplos, que apostam na capacidade de convocar esta “outra cena” que faz delirar a linguagem.
Arivanio Kixelô nasceu no município indígena de Quixelô no Ceará, neto de avós com diversas habilidades manuais, deles herdou o gesto como diretriz de trabalho: suas avós eram costureiras; um avô caiçara trabalhava com madeira e louças; o outro pintava e costurava. Mergulhando na pura vertigem, através da pintura e desenho Arivânio cria um inventário infinito e inacabado, flertando com o absurdo e o fantástico em um belíssimo compêndio que desafia os limites da razão. Atraído pela estranheza, revira a domesticidade das imagens e salta à outra margem, extraindo daí um saber possível, elaborando o que excede, invocando uma abertura que vive em criaturas híbridas. O artista se interessa pelo que prolifera nas margens e trabalha a partir de imagens ligadas ao cotidiano e à cultura popular. Sua materialidade são papéis reutilizados de sacos de cimento, retirados de descarte habitacional dos bairros de periferia. Da escassez de recursos ele forja um mundo rico e exuberante e, ao abrir a possibilidade de formas híbridas de existência e modos diversos de vida, abriga uma dimensão do acontecimento que surge nas entranhas do mundo e nas fronteiras do absurdo. Sua pintura revela uma atividade febril de conexões que se agitam em universos variáveis, em pura vertigem.

Caio Borges traz um mundo prenhe de fascinante desordem. O fantástico de sua obra encarna a sensibilidade e a própria existência. Com repertório próprio – que teve início como ilustrador e chegou à pintura – ele cria pelo desenho: as fronteiras entre desenho e pintura são borradas, burlando regras. A questão da infância e o assombro daí oriundo são pontos fulcrais de um trabalho erigido ao redor de bonecas, fotografias de família e diversos elementos da cultura pop. As camadas subjetivas de seu trabalho se transmutam sempre, no atravessamento e deslocamento de fronteiras e limites em porosidade, borrando linhas e sensações.

A fabulação, o sonho e o delírio se enodam em Charles Cunha como movimentos disruptivos capazes de transformar a realidade. O delírio é tomado como uma potência de vida que, zombando da ordem, pode denunciar as tentativas de cerceamento, abrindo frestas a uma nova constelação de forças desestabilizadoras. Seu trabalho se desloca da dança para a pintura, linguagens que vão se complementando, incluindo o ambiente digital e suas contradições. As imagens zombeteiras e distópicas revelam a ideia de que o mundo virtual não é um espaço paralelo, mas um campo de produção de subjetividades. Memes, celebridades e imagens virais funcionam como signos de uma cultura que se alimenta da repetição, do humor e do excesso, em uma espécie de “arqueologia do agora”. Embora a cultura pop seja central em seu trabalho, há também relação com a cultura popular brasileira – especialmente as manifestações e festas populares – e com artistas que trabalham a partir da precariedade e do improviso. Ele opera nesse fluxo cotidiano: entre a rua, a cultura popular e o universo virtual.
Cynthia Loeb abre brechas à deriva, invertendo lógicas de funcionamento que recuperam a dimensão da incerteza e da imaginação. Com suportes diversos – esculturas, assemblages, aquarelas e, atualmente, pintura – ela se utiliza de materiais como cerâmica, porcelana, suporte em ferro, peças antigas, peças de bonecas em porcelana, madeira, sementes, cabaças e raizes. Em seus trabalhos, com traços e aparições que condensam o sobrenatural e o mágico, convergem temáticas diversas que sustentam um hibridismo de linguagens de rara fineza. De um universo onírico, encantado e selvagem, a artista cria paisagens insólitas. Das brincadeiras com bonecas surgem experiências psiquícas diversas. É impossível não evocar aqui as assemblages de Farnese de Andrade, um artista também inclassificável, ou o trabalho de Marlene Dumas e suas presenças surreais e monstruosas que lembram que nossa deformação também nos forma.


Igor Romualdo aprendeu, na vida em comunidade, as questões que regem seu trabalho: as relações entre humanos, animais e outros objetos e presenças. Seus rostos nos devolvem ao nosso abismo e, em cada expressão, abrigam o absurdo e delirante do cotidiano. Seu trabalho já nasce interrogando a delimitação que o cânone impôs ao território da arte, ao dela excluir a dimensão brincante, poética, popular, em que a ordem das coisas não se dá por hierarquia, mas em uma espécie de zona borrada de inquietante estranheza. Desde os oito anos de idade ele faz desenhos, gravuras, animações e esculturas – na xilogravura, a lápis ou carvão e também no barro – fazendo com que seu corpo execute movimentos e posições sem coordenadas exatas. É como o bamboleio evocado em “Estética da ginga: a arquitetura das favelas”, belíssimo livro em que Paola Berenstein, a partir do trabalho de Hélio Oiticica, revela um outro modo de fazer e pensar a arte.

Jesus José é do interior de Goiás. Sua formação no campo da imagem é ancorada em elementos que surgem tanto da igreja como da televisão, e também da convivência com a Folia de Reis e o Congado. Sua vida artística foi dedicada ao desenho e, hoje, sua linguagem é a pintura e o que ela porta do invisível. Seu trabalho estabelece uma relação singular com o tempo e o vazio, evocadas por seu gesto pictórico. Suas pinturas pretas revelam não somente a escuridão e rutilância, mas camadas de tempo que incluem erros, arrependimentos e certa turvação. A possibilidade de uma espécie de visão inaugural que pode distanciar as coisas de uma zona familiaridade. Sua pintura abriga o silêncio, o desconhecido, uma epifania que se dá em um exercício de redução entrevendo o indízivel de toda imagem.

Nos retratos que faz de papangus, Nicolas Gondim articula moda e fotografia, operando cruzamentos entre imagem, corpo, indumentária e cultura popular, com especial atenção às expressões simbólicas do nordeste brasileiro e foco no vestuário. Sua obra tem a fotografia como o ponto central de um delírio que se forja na expressão corporal, nas vestes e nas máscaras, com o olhar das ruas, dos lugares do interior, da luz do Ceará, das minúcias de um mundo em constante deslocamento. As criaturas populares e brincantes abrigam o tremor de tudo e capturam o absurdo e o lirismo popular, refundando a relação com o mundo que irrompe sob formas fantasmagóricas e ambíguas: o papangu invoca uma beleza, a um só tempo assombrada e luminosa.
Os artistas aqui reunidos preservam o encantamento de quem pode fazer algo a partir do delírio, operando do espanto e da desnaturalização das coisas. É difícil não citar Van Gogh pela mirada de Artaud, que nos lembra que os olhos atentos do artista capturam, para além da paisagem, as formas secretas da natureza, escutando o silêncio e o barulho nela escondidos. Van Gogh chegou a um “estágio de iluminação no qual o pensamento em desordem reflui diante das descargas invasoras da matéria, no qual pensar já não é consumir-se”. A pintura é a língua por ele utilizada para nos despojar corporalmente das formas essenciais, conduzindo-nos às metamorfoses dos objetos e nos fazendo esquecer que estamos diante de uma pintura. Uma pintura que “faz avançar até nós, diante da tela fixa, o enigma puro, o puro enigma da flor torturada, da paisagem apunhalada, arada, abalada em todas as partes por seu pincel bêbado”. Eis uma lição de diálogo profundo entre criação, delírio e arte.
Bianca Coutinho Dias é ensaísta, psicanalista, pesquisadora, crítica de arte e curadora. Especialista em História da arte pela FAAP, mestre em estudos contemporâneos das artes pela Universidade Federal Fluminense, doutoranda em memória social na UNI- RIO. Escreve sobre artes plásticas, cinema, literatura, psicanálise e sobre tudo mais que pode movimentar e reinventar o mundo. Na coluna “ Mais, ainda” muito desse universo heteróclito entrará em cena compondo um exercício experimental da escrita que se abre para a partilha de experiências sensíveis, pesquisas em andamento, visitas à espaços de arte, andanças diversas e outros delírios.
Serviço: Exposição “Somos todos loucos, e estamos autorizados a falar da loucura somente de dentro dela”, com curadoria de Bianca Dias, na Casa Yara DW, Rua Costa Carvalho, 52 – Pinheiros, São Paulo-SP.